O TERCEIRO
[E outros poemas de Marcelo Sousa]
O TERCEIRO
Sempre fui terceiro,
Sorrateiro em chances e vontades,
Cérbero, Medusa, Hidra a preparar o bote.
Filho de trevas apresentadas no picadeiro,
Palhaço que se esquiva dos holofotes!
Sempre fui terceiro,
De mirar o alheio nĂŁo me canso,
E sempre que tua voz me invade
Sei que posso ser atroz, herĂłi ou manso
Habitando tua cama já povoada: Olimpo e Hades!
Sempre fui terceiro
Aguardando tua poesia obtusa.
Tua bossa descalça e muito bacana
Arranca saias com a delicadeza, e ousa
Abusar como quem abençoa, e usar como quem se escusa.
Sempre fui terceiro
Nestes mènages atrozes, vorazes, velozes
Onde a mão que o salmo escreve também se atreve
A passear por recônditos onde Shiva, Javé, Jah e Maomé
Nadam no ar, de New York a Pequim, da Rocinha a Gizé.
Sempre fui terceiro.
Tuas afrodites, calĂopes, nereidas, persĂ©fones, reginas
São inspiração do meu secreto gozo, das prediletas rimas
Que pululam meus versos, meus gostosos e perversos devaneios
De injetar doces vilões e cáusticas heroĂnas sem pudor, direto nas veias.
WikiperfĂdia: "Terceiro", aquele que, nĂŁo tendo sido convidado para a festa, goza olhando pelas frestas.
O poeteiro nato, por assim dizer.
AS 182 ESTÂNCIAS DO CÉU E DO INFERNO
Escadas inĂşteis.
Janelas exageradas.
Paredes limpas demais.
Olhos descascados.
Desejos contidos.
MĂŁos encarquilhadas.
Corredores brancos demais
Geralmente nĂŁo levam a nada.
A proximidade pode trazer carinho
Porém mais certo é que faça fricção.
O coração em sua rotina muscular
NĂŁo canta, nem pode falar.
O vinho nĂŁo sacia.
As sedas envolvem
Mas nĂŁo acariciam.
Haverá espinhos
Sob essas almofadas?
O cotidiano embaça
Os espelhos.
Verdades inauditas
Com pesar sĂŁo respiradas.
Toda perfeição,
Cedo ou tarde,
Enfada.
NINGUÉM
Quem viria aqui em uma noite dessas
ouvir meus gemidos, olhar-me pelas frestas?
Quem adentraria esta porta
dizendo que amar Ă© sĂł o que importa?
Quem aceitaria este corpo
sem notar o quanto Ă© feio e torto?
Quem sugaria de minha boca
esse beijo guardado que quase me sufoca?
Quem, ao olhar-me nesse espelho partido
desejaria parecer-se comigo?
Quem permaneceria ao meu lado
sabendo que estou sĂł e mal acompanhado?
Nenhum comentário