Breaking News

Anonimato




Conto de Maurem Kayna

Alfredo nunca gostou do prĂ³prio nome, era um homem acanhado, dono de uma apatia gris que sustentava seu insucesso como corretor de imĂ³veis. Ao completar cinqĂ¼enta anos, no final de agosto, a esposa o abandonou para ingressar em novas rotinas, que incluĂ­am o curso noturno de psicologia, o crescimento do negĂ³cio caseiro de artesanato e um princĂ­pio de vaidade. O pretexto dela para o divĂ³rcio foi simples, irretorquĂ­vel: “NĂ£o irĂ¡s nunca a lugar algum, e eu descobri certa pressa nas veias. NĂ£o me somas nada e para ti nĂ£o farei falta maior que a conservaĂ§Ă£o das camisas”. Sem rusgas ou emoções bruscas, coisas que nĂ£o combinariam mesmo com Fredo, sempre preocupado com os olhares da vizinhança, assinaram os papĂ©is necessĂ¡rios.

Tirou suas coisas da casa quitada tentando nĂ£o chamar atenções sobre si e acomodou-se em uma pensĂ£o barata, perto da rodoviĂ¡ria. Quarto Ăºmido, dois banheiros mal conservados no final do corredor, pagamento quinzenal, religiosamente atendido em dinheiro miĂºdo. Ali, Alfredo coexistia com prostitutas em fim de carreira e desocupados de variadas estirpes. Viver daquele modo era mais uma estratĂ©gia para evitar pedidos de pensĂ£o de sua ex-mulher do que uma necessidade real.

Sua rotina era feita de emoções planas, sem sustos nem horizontes. Foi um funcionĂ¡rio pĂºblico exonerado, chegado a pouco tempo do interior, que descreveu o cotidiano do falecido para o repĂ³rter, logo que a polĂ­cia terminou os levantamentos necessĂ¡rios.

NĂ£o havia muito para compor a trama esperada pelo ruivo de caneta ansiosa. O morador do penĂºltimo quarto falava pouco, mas era educado com todos os moradores – fixos e flutuantes – pouco se sabia dos acontecimentos cotidianos atrĂ¡s da porta verde musgo. Da sua rotina fora do quarto o que havia para contar Ă© que todas as quintas-feiras ele saĂ­a com os lenĂ§Ă³is acomodados na sacola da lavanderia que ficava na rua de trĂ¡s e voltava logo apĂ³s o alomoço com as roupas de cama passadas. Era comum que saĂ­sse junto com a mulher de idade indefinida que o visitava nas quartas Ă  noite e ficava atĂ© a manhĂ£ seguinte. Mas ontem ela nĂ£o apareceu, disse o entrevistado, enquanto a vizinha bisbilhoteira fazia suposições sobre a aĂ§Ă£o de algum assassino em sĂ©rie. Cada hĂ³spede ou morador fantasiava conforme seus prĂ³prios fantasmas.

Faltava-lhes, no entanto, testemunhar a chegada da loira madura e discretamente maquiada algumas horas antes do habitual, na quarta Ă  noite. Seus passos nĂ£o foram voluntariamente furtivos mas ficaram anĂ´nimos no corredor cheirando a desinfetante barato. NinguĂ©m a viu entrando no quarto e fechando a porta verda com cuidado; tambĂ©m nĂ£o houve quem cruzasse com seus olhos de choro ao sair, quando tomou certo cuidado para nĂ£o ser vista. Preferia nĂ£o mostrar o inchaço sob o olho direito. Partiu calada, sentindo dignidade na decisĂ£o de nĂ£o voltar.

Um pouco mais tarde, na mesma noite, enquanto Fredo ainda pensava que a mulher voltaria, mesmo depois das ofensas, que ele nĂ£o considerava assim tĂ£o graves, e acreditava que se diverteria um pouco e dormiria acompanhado, o homem do interior, de bigode mal aparado, ingressou no prĂ©dio sem que dona Sueli, a proprietĂ¡ria da pensĂ£o, perguntasse sobre seu destino. A velha prestava atenĂ§Ă£o ao pequeno televisor da recepĂ§Ă£o e pensou que o homem tinha algum encontro marcado com Marisa, a travesti popular do terceiro andar. Acreditava jĂ¡ ter visto os dois juntos.

Mas foi o Vasconcellos que lhe abriu a porta de pintura gasta. Arregalou olhos surpresos sem articular palavra. NĂ£o por se julgar esperto o bastante para enganar o dono do loteamento enredado em disputas de famĂ­lia, mas nĂ£o pensava que ele viria cobrar-lhe a decĂªncia que nĂ£o tivera com seus irmĂ£os.

A cobrança pelos deslizes acumulados ao longo da carreira, pela postura de marido indiferente e amante eventualmente violento, veio enfim. Mas nĂ£o chegou com o costumeiro marasmo, senĂ£o trançada numa angĂºstia atĂ© entĂ£o desconhecida.

Subestimara as reações do cliente – pouco dado a escĂ¢ndalos, mas desprovido de dificuldades morais com o uso do 38 herdado de seu tio. O sujeito de cabelos gordurosos nĂ£o foi exigir ressarcimento, chegou lĂ¡ para punir e eliminar a negociaĂ§Ă£o que transferia para JosĂ© Alfredo Vasconcelos um dos vĂ¡rios terrenos razoavelmente localizados que entregara para venda. Fredo, ainda mais cinzento que de costume ,quis escapar, tateando passos incertos para fora do discurso rancoroso do proprietĂ¡rio iludido. O homem rude, mesmo falando entredentes, parecia ocupar com suas acusações toda a extensĂ£o do quarto de dormir e pouco viver. Era um sujeito vingativo, determinado. Permitiu a fuga, imersa em medo viscoso, apenas pela satisfaĂ§Ă£o de perseguir sua presa. Fredo se refugiou no cubĂ­culo da direita, no final do corredor, mas foi seguido pelos ouvidos calmos do algoz. Chegou a se iludir, dizendo de si para si que aquela raiva talvez fosse coisa de dizer desaforos rĂ¡pidos e ir embora.

Respirava o ar carregado de urina e sabonete barato enquanto o ex-cliente se comprazia adivinhando o pavor e a covardia a preencher seus minutos pegajosos. Mas a brincadeira macabra logo cansou o homem rancoroso, que preparou a arma e esperou o barulho do trĂ¢nsito e da gritaria na boate da esquina para ir ao encontro de JosĂ© Alfredo, que, encolhido ao lado da privada, contabilizava suas chances de mudar de cidade. Foi um tiro apenas.

Com o silĂªncio definitivo, o visitante sentiu-se tranquilo o bastante para aproveitar o rebolado faceiro do travesti descendo a escada e cantando alto. Era o Ă¡libi que, mesmo sem ter procurado, lhe garantiria sossego. Esperou Marisa na escada, como estivesse subindo em sua busca, beliscou-lhe o traseiro e saiu em meio a uma festividade frĂ­vola, testemunhada na portaria da pensĂ£o. Despediram-se sem promessa de memĂ³ria recĂ­proca apĂ³s o pagamento por rĂ¡pidos serviços prestados junto ao muro lateral do edifĂ­cio decadente onde jazia o corretor.

No lugar do corpo, havia o que o repĂ³rter chamou de marca do pĂ¢nico: o amarelado da urina e misturava ao sangue coagulado. A fotografia do local do crime estampou as pĂ¡ginas policiais de jornais sensacionalistas e a matĂ©ria continha especulações diversas envolvendo de dĂ­vida de jogo, roubo e queima de arquivo. O inquĂ©rito nĂ£o alcançaria culpado algum e entes queridos nĂ£o havia para cobrar um outro epĂ­logo

*

Este conto foi originalmente publicado no site Anjos de Prata, uma iniciativa apoiada pelo escritor Mario Prata que ficou no ar entre 2000 e 2007. A versĂ£o aqui publicada passou por nova (e expressiva) revisĂ£o. 

*

Créditos da imagem: olhares.com
velho hotel, por PauloB

Nenhum comentĂ¡rio